A Parashá da minha vida- Mishpatim

Os Rabinos portugueses de centenas de anos atrás usaram a letra “H” para a transliteração da letra “ח” em Hebraico que equivale a dois erres “rr” em português

 

Na transliteração do hebraico nessa página vamos usar a letra “h” com um apóstrofo ( ‘ ) como dois erres (rr) assim: ‘h e a letra “A” para a transliteração da letra “ה” em Hebraico que tem o som da letra A na língua portuguesa

 

Nossa Parashá nos conta sobre a proibição de se comer carne com leite.

Sabemos que todo animal impuro é considerado impuro porque tem uma alma animal proveniente de três níveis espirituais impuros chamados pela Kabalá de três “Klipot Tmeot”.

 
Nesse caso a impureza é tão grande que não conseguimos elevar o “Nitzutz” (Centelha Divina), a ínfima Kedushá (Santidade) que faz essa Klipá existir.

Esse “Nitzutz” não está revestido na Klipá pelo fato de ela ser uma “Klipá impura”, mas ele dá vida a ela de maneira envolvente sem se revestir nela.

 

Se não houvesse esse Nitzutz do lado bom a klipá não existiria, sendo que AShem(D’us) é a essência do bem e a natureza do bem é fazer o bem.

A coisa ruim só existe enquanto suga a sua vitalidade do lado bom, mas quando esse Nitzutz é tirado da coisa ruim ela não tem mais de onde sugar sua vitalidade e portanto, desaparece.

 

Muitas regras na Torá tem exceção, mas a exceção só pode acontecer se a própria Torá trouxer um versículo que determine essa exceção.

 

No caso de comer uma coisa não kasher por motivos de perigo de vida, a Torá “libera”, ou seja, libera o Nitzutz da comida impura que não teríamos capacidade de liberar em uma situação normal.

 

Se um náufrago judeu se encontra em uma ilha na qual a única coisa que ele tem para comer lá são animais impuros, nesse caso devido ao perigo de vida a Torá libera esses animais impuros.

Por meio dessa exceção de regra, conseguimos liberar o Nitzutz fazendo o lado espiritual ruim desses animais impuros  desaparecer por não ter de onde sugar a sua vitalidade.

 
Em todos os casos de perigo de vida esse fenômeno Kabalistico (de conseguir liberar o Nitzutz de maneira não convencional) acontece.

Tanto no caso do náufrago que teve que comer lagartos quanto no caso do doente que recebeu do médico um remédio não kasher, em todos os casos em que nossa vida é salva dessa forma nossa Alma Divina recebe uma força especial para conseguir liberar o Nitzutz da comida impura.
 

Em uma situação normal, que não é um perigo de vida, não temos essa capacidade de liberar o Nitzutz da comida impura.

Nesse caso, a comida impura nos rebaixa para o nível dela, para o nível das três Klipot Tmeot. Para as três categorias de impureza espiritual, com todas as suas consequências.

 

A carne cozida com leite é o pior problema no assunto de Kashrut.

Essa proibição aparece três vezes na Torá nos ensinando ser proibido para nós, comermos carne com leite, cozinharmos carne com leite, mesmo que não comeremos, e por final, termos qualquer proveito de uma carne cozida com leite mesmo que não fomos nós que fizemos essa mistura.

 
Aqui está se tratando até de uma carne kasher com leite kasher, uma carne que pairava sobre ela uma energia espiritual do lado bom e um leite que pairava sobre ele também uma energia espiritual do lado bom.

Na hora que eles se misturam, essa energia espiritual do lado bom desaparece e lá se revela a maior impureza possível e imaginável do assunto de Kashrut.

 
E A PERGUNTA É:

Se até o próprio porco, que é a “marca registrada” dos animais impuros, se liberta do seu lado impuro quando alguém precisa comê-lo por motivos de perigo de vida, como pode acontecer um caso totalmente oposto que é uma carne kasher e um leite kasher, mas que juntos se tornam a coisa mais não kasher do mundo?

 

Uma carne de animal puro que passou por um abate kasher e o sangue dela foi tirado depois do abate com sal grosso, ou se expeliu quando essa carne estava sendo assada.

 

Como pode ser que depois disso, se ela for cozida com leite, mesmo o leite sendo Kasher, ela se torna o maior de todos os problemas de Kashrut possíveis e imagináveis?

 

A EXPLICAÇÃO DO ZOHAR:

 
Quando AShem trouxe as dez pragas para o Egito, pediu para Moshe fazer uma ação antes de cada uma delas, para que o castigo do tribunal Divino que se encontra em uma dimensão espiritual descesse para o nosso mundo material que é o “mundo da ação”, e por isso Moshe Rabeinu precisou fazer uma ação para cada praga se revelar no Egito.

 
AShem pediu para Moshe bater com seu cajado nas águas do rio Nilo para que ele se transformasse em sangue.

Moshê respondeu que não poderia dar essa cajadada no rio Nilo porque quando Moshe era nenê sua mãe o colocou em uma cestinha impermeável nesse rio e assim sua vida foi salva. Por isso ele não pôde ser ingrato e dar essa cajadada.

Nesse caso AShem poderia fazer com que o rio Nilo se transformasse em sangue sem a cajadada, mas no lugar disso, AShem pediu para Moshe falar para Aharon para ele dar a cajadada, e não Moshe.

A mesma coisa  aconteceu na praga dos piolhos. AShem pediu para Moshe jogar a terra do Egito para cima, e assim começaria a praga dos piolhos.

Moshe disse para AShem que não pode ser ingrato com a terra porque quando ele matou o soldado egípcio que estava tentando assassinar um judeu ele o enterrou na terra para o faraó não descobrir o que ele tinha feito.

Nesse caso também, AShem não fez a praga dos piolhos sem que tivesse uma ação material que sincronizasse a praga com o nosso “mundo da ação”, e pediu para Moshe pedir para Aharon que ele jogasse a terra para cima, e assim a praga começaria.

Diz o Zohar que exatamente isso é o que acontece na mistura da carne com leite.

 

A raiz do leite lá em cima é a Sefirá chamada de Hessed que é a fonte das bondades. A Hessed é representada pela cor branca.

A raiz espiritual da carne, lá em cima é a Sefirá chamada de Guevurá que é a fonte das durezas, a fonte das severidades.

A Hessed sempre limita a Guevurá e nos salva das calamidades que a Guevurá pode nos causar.

Diz o Zohar que quando comemos carne com leite aqui neste mundo estamos fazendo uma ação no mundo da ação, dando a “cajadada” que vai neutralizar a Hessed lá em cima impedindo ela de ser um filtro para a Guevurá.

E quando não há o limite da Hessed, a guevurá desce até o fundo do abismo causando tragédias aqui nesse mundo.

E por isso, diz o Zohar, que todas as comidas de Nabucodonosor, rei da Babilônia, eram compostas de carne com leite, e assim ele recebia suas energias negativas para fazer todo o mal que fazia.

 
Nabucodonosor mandou dar essa comida para o profeta Daniel, que por sua vez subornou o responsável por ele para não precisar comer nada do palácio do rei.

O Zohar nos conta que quando o profeta Daniel foi colocado na cova dos leões, os leões não fizeram nada a ele. O motivo para isso foi o fato de ele não ter comido os derivados de carne com leite que o rei mandava para ele.

 
Diz o Zohar que isso acontece pelo motivo de termos uma aparência espiritual que nós próprios não vemos, mas que os animais conseguem ver.

E se o profeta Daniel tivesse comido a carne com leite que o rei mandava, ele perderia a aparência espiritual de ser humano criado à “imagem e semelhança Divina”, e no lugar disso teria a aparência espiritual do cabritinho, ao qual os demônios também são comparados, e nesse caso os leões o teriam comido.
 

Conclusão: Coma só kasher, você só tem a ganhar!
 

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Nossa Parashá começa com as palavras: “E essas são as sentenças que você vai colocar na frente deles”

 
A Parashá anterior nos contou sobre a entrega da Torá e os de Dez Mandamentos, e aparentemente nossa Parashá está continuando esse assunto com mais detalhes.

 
Mas se a intenção da nossa Parashá é a de nos ensinar as leis judaicas, por que ela usa a linguagem “sentenças” e não “leis”?

 

Sentenças são a consequência dos julgamentos, considerando que a pessoa já sabia anteriormente a lei, tendo sido sentenciada por tê-la transgredido.

 

Sentenças não são o próprio estudo das leis, mas sim a colocação das leis, na prática.

O LADO REVELADO E O LADO OCULTO DA TORÁ

A Torá tem um lado simples e um lado profundo. Quando a linguagem da Torá não se encaixa exatamente no significado simples, ela está nos indicando que por trás disso há algo muito mais profundo.

 
Um exemplo disso é a linguagem, também na nossa Parashá, de “olho por olho, dente por dente, braço por braço, perna por perna, queimadura por queimadura, ferida por ferida”.

Essa linguagem é analisada e explicada, e a conclusão é de que ela quer dizer que a indenização por um olho não é a mesma que a indenização por um dente.

Mas jamais a intenção da Torá seria de que se uma pessoa sem dentes quebrasse os dentes de alguém, estaria isento de punição.

Ou de que alguém que causou a perda de um olho de outra pessoa, tivesse seu próprio olho arrancado, o que provavelmente também poderia causar a sua morte, que não é a penalidade nesse caso.

Então, por que a Torá já não diz diretamente que aqui está se tratando de indenizações?

Por que a Torá não usa uma linguagem direta, mas no lugar disso usa uma linguagem que tem que ser analisada e explicada?

O motivo para isso é que essas linguagens vêm nos indicar grandes segredos que estão por trás delas, como explica o Zohar.

Diz o Zohar que nossa Parashá está nos revelando o segredo das reencarnações, o sentenciamento das Almas, e por isso está escrito que essas são as sentenças que você colocará na frente deles.

A lei do escravo judeu que trabalha seis anos e no sétimo sai livre, representa dois tipos de Alma.

Um tipo de Alma que se reencarna para consertar a si própria, representada pelos seis anos de trabalho que indicam seis Sefirot, seis níveis espirituais que ela tem que consertar.

Outro tipo de Alma que não tem nada para consertar, mas se reencarna para auxiliar os outros a se consertarem, representada pelo sétimo ano, o qual é o ano da liberdade do escravo na Parashá, indicando a Sefirá chamada de Mal’hut.
 

A ESTRUTURA DA REENCARNAÇÃO

 

Quando uma pessoa falece, ou seja, a Alma deixa o corpo e ele se torna um corpo sem vida, devemos enterrá-lo dentro de 24 horas, considerado pela Torá um dia e uma noite.

 

O motivo para isso, é porque talvez tenha sido decretado para ele se reencarnar novamente naquele mesmo dia para o seu próprio bem.

E todo o tempo que o corpo não é enterrado, a Alma não se apresenta na frente de AShem, e não pode entrar em um segundo corpo para uma segunda reencarnação, sendo que não é dado um segundo corpo para a Alma até que seja enterrado o primeiro.
 

O SEGUNDO CORPO

 

O segundo corpo recebe aquela mesma Alma, com o mal que ela fez na reencarnação anterior, e ela deve se refinar nesta segunda reencarnação. Ela deve se separar desse mal ao qual veio ligada.

Conseguimos eliminar esse mal por meio da Teshuvá e do estudo da Torá, estudando as leis do que é permitido e proibido, do que é puro e do que é impuro, do que é adequado e do que é inadequado, e dessa maneira separamos o mal do bem.

E assim, sem o bem para lhe dar a vida, o mal desaparece.

Em último recurso. Se não fizermos Teshuvá (retorno) e estudarmos Torá, esse mal desaparece por meio de sofrimentos relativos ao que fizemos na reencarnação anterior, mas novamente, esse é o último recurso.

E por isso, em relação à reencarnação, a linguagem “olho por olho e dente por dente” está exata.

Se ele causou para alguém na reencarnação anterior a perda de um olho ou de um dente e morreu sem fazer Teshuvá.

Se não corrigir essa pendência de maneira positiva na reencarnação posterior, ele pode chegar a perder o olho ou o dente na prática.

 

O motivo de a Teshuvá, e o estudo da Torá, limparem totalmente as pendências da nossa Alma, sem precisarmos de um castigo adicional pelo que fizemos, é porque a própria reencarnação já é um castigo, e já serve para nos purificar.

Esse é o motivo, diz o Zohar, que vemos às vezes um Tzadik que tem uma vida difícil.

 

Porque talvez ele já tenha estado alguma vez nesse mundo, mas daquela vez ele não foi muito Tzadik, e faleceu assim, sem fazer Teshuvá.

E agora que veio novamente para esse mundo, é cobrado dele o que ele fez da vez passada.

 

Quando  mudamos  de lugar, mudamos o nosso destino para melhor .

A Guemará nos conta que uma pessoa que muda de lugar, muda o seu destino para melhor.

E a fonte dessa Guemará é baseada na história do nosso patriarca Avraham Avinu.

AShem diz para ele deixar a sua terra, e a continuação do assunto, é que AShem fará dele um grande povo, e onde ele morava antes, ele não teria filhos.

Diz o Zohar que uma mudança é considerada uma nova reencarnação.

E por isso, diz o Zohar, quando um Tzadik tem que mudar de lugar para lugar, de uma casa para outra, é como se ele tivesse se reencarnado várias vezes, e sobre isso está escrito no segundo Mandamento “e faz bondade milhares de vezes para os seus amados”.

 
As pessoas ruins, tem direito somente a três reencarnações, três chances de se consertar de maneira positiva.

Se fizerem Teshuvá, o exílio limpa os pecados, e as mudanças de lugar para lugar são consideradas para ele como várias reencarnações, mais do que ele tinha direito, purificando sua Alma mais ainda.

E assim ele chega à perfeição da mesma forma que o Tzadik.

Essa mudança de lugar para lugar, são consideradas uma nova reencarnação e purificam mais um pouquinho a nossa Alma. Pode ser até uma viagem de férias ou de negócios, sendo que nesse caso você não está na sua casa.
 

UMA PESSOA RUIM COM UMA VIDA BOA.

 

Da mesma maneira que existe o Tzadik, que sofre por não ter sido tão Tzadik na reencarnação anterior, existem pessoas que tem uma vida boa agora, por terem sido pessoas melhores na reencarnação anterior.

 
Conclusão:

Aprendemos daqui que devemos sempre estar felizes em qualquer situação, mesmo que nossa situação atual não justifique essa felicidade, e nunca devemos questionar o fato de alguém que se comporta pior do que nós estar tendo uma vida melhor do que a nossa.

Porque  quando estamos felizes sem motivo, AShem nos dá um desconto das pendências anteriores, e nos dá o motivo para estarmos felizes de verdade!

 

Shabat Shalom!
Rabino Gloiber
Sempre correndo
Mas sempre rezando por você