
Tazria
Nossa Parashá nos conta que quando a mulher tem o grande mérito de fazer a importante Mitzvá de dar a luz a um filho, ela se torna impura para o marido por sete dias.
Depois disso, mesmo já estando pura para o marido depois ter mergulhado no Mikve, ela continua impura por mais 33 dias em relação ao Beit a Mikdash. Ou seja, por mais 33 dias fora os sete anteriores ela não pode entrar no lugar sagrado
Como pode ser que depois de ter feito uma Mitzvá tão grande de dar a luz a um menino, ela ficou impura por quarenta dias.
Nossa Parashá continua nos contando que quando a mulher tem um mérito ainda maior e faz a importante Mitzvá de dar a luz a uma menina, ela se torna impura por quatorze dias para o marido.
Depois disso, mesmo já estando pura para o marido depois de ter mergulhado no Mikve, ela continua impura por mais 66 dias em relação ao Beit a Mikdash.
Ou seja, como pode ser que depois de ela ter feito uma Mitzvá ainda maior e ter dado a luz a uma menina, como consequência disso ela fica impura por oitenta dias?
Impureza material, impureza espiritual e purificação das impurezas
Rav Yeshayahu ben Avraham HaLevi Horowitz conhecido como HaShlá HaKadosh por causa do seu livro Shnei Lu’ḥot HaBrit, foi um grande Tzadik e estudioso da Kabalá.
Ele nasceu em Praga (hoje república Tcheka) por volta de 1555 e faleceu em Tvéria (Tiberíades) por volta de 1630.
Em 1621, após a morte de sua esposa Haya, ele se mudou para Jerusalém onde se casou novamente e se tornou o Rabino da cidade.
Por ser um Rabino tão grande e famoso, o paxá (governador da província) Muhamed ibn Farouk, aplicou sobre ele um golpe de extorsão usual no Oriente Médio.
O paxá mandou colocar o Shlá na prisão junto com os quinze judeus mais importantes de Jerusalém, e exigiu uma grande fortuna para soltá-los.
Depois que ele foi libertado, por motivos de segurança mudou-se para Tzfat (Safed). Três anos depois ele se mudou para Tiberíades onde viveu mais cinco anos. Lá ele faleceu e lá se encontra o seu túmulo. Tzfat e Tvéria eram naquela época as cidades dos cabalistas e lá também viveram o Ramak e o Ari Zal.
O Shlá nos conta que existem três categorias de impureza:
Impureza espiritual
Como por exemplo o “espírito de impureza” que entra no nosso corpo durante o nosso sono, quando nossa Alma tem acesso ao mundo superior.
Essa categoria de impureza é retirada por meio da “Netilat Yadaiim”. Lavamos as mãos de maneira intercalada pelas manhãs e assim nos purificamos dessa impureza.
Você pega com a mão direita um recipiente cheio de água e passa para a mão esquerda. Então você despeja um pouco dessa água inicialmente sobre a mão direita. Depois você segura novamente o recipiente com a mão direita, despejando um pouco dessa água na mão esquerda. Faça isso três vezes, alternadamente.
Caso não haja água suficiente você pode despejar a água sobre os dedos (até a junção dos dedos com as mãos) mas o ideal é ter água o suficiente para cada vez jorrar a água sobre todo o punho.
Essa netilá deve ser feita sempre com um recipiente. Compre um pote redondo e grande, encha ele de água e coloque ele dentro de uma bacia ao lado da sua cama. De manhã, sem descer da cama, faça a Netilat Yadaiim.
A água utilizada para a netilá não poderá ser usada para nenhuma outra finalidade porque um espírito de impureza paira sobre ela. E também não deve ser jogada em lugares por onde transitam pessoas que possam entrar em contato com ela.
Impureza parcialmente espiritual e
parcialmente material
A impureza parcialmente espiritual e parcialmente material é a causada quando mexemos em animais mortos, sendo que quando o animal morre, mesmo tendo sido ele em vida um animal puro, após a morte paira sobre ele um espírito impuro.
O animal que passou por um abate Kasher não impurifica, porque sendo que o abate foi feito da maneira que a Torá pede para ser feito, nesse caso no lugar de pairar sobre ele um espírito impuro, paira sobre ele um espírito puro.
Impureza material
A impureza material é aquela que é causada pelo sangue que saiu do útero da mulher, como no caso da nossa Parashá e tudo o que é comparado a isso.
A purificação desses tipos de impureza citados acima é por meio do mergulho no Mikve.
O Rambam nos conta que as purezas e impurezas citadas pela Torá são um “decreto do versículo”. Ou seja, mandamentos Divinos que estão acima da nossa capacidade de entendimento, e por isso são chamados de hukim חוקים.
Diferente da categoria de leis da Torá chamadas de “Mishpatim” que são leis que conseguimos entender, como por exemplo “não assassinar”, “não roubar” e etc, os “hukim” são leis da Torá que estão acima do nosso entendimento, e todas as leis da Torá relacionadas a assuntos de pureza e impureza estão nessa categoria.
Quando fazemos uma Mitzvá, ou seja, quando cumprimos um mandamento Divino, trazemos para nós próprios uma grande pureza espiritual. E não somente para a nossa Alma, mas principalmente para o nosso corpo.
E esse é o motivo da descida da nossa Alma para esse mundo, cumprir os Mandamentos Divinos. Como por exemplo, dar a luz a uma menina ou a um menino, e por meio disso trazer uma enorme pureza espiritual para o nosso corpo e também para a nossa Alma.
Ao mesmo tempo que a mulher por meio de cumprir o Mandamento Divino de dar a luz recebe toda aquela imensa pureza espiritual para seu corpo e sua Alma, uma pureza que vai reluzir eternamente nela, junto com isso ela recebe uma impureza material não detectável que veio para ela por meio de uma ação material e vai sair dela por meio de outra ação material, e não por meio de rezas ou outros assuntos espirituais.
Como nos conta o Rambam que todo o assunto da pureza e impureza não é detectável, e por isso é chamado de “hok”, uma lei da Torá que está acima do nosso entendimento. Assim também a sua purificação por meio do mergulho no Mikve é um “hok”.
Da mesma maneira que a impureza não é detectável, sua purificação por meio da água também não é detectável, e todo esse assunto é chamado pelo Rambam de “decreto do versículo” por estar acima do nosso entendimento.
No caso da impureza e sua purificação, esse “decreto do versículo” vem nos revelar a impureza que existe nesse mundo material e não temos como saber que ela existe a não ser pelo fato de o versículo nos revelar a existência dela.
Ela aparece no nosso corpo por meio de uma ação material como no caso da mulher que deu a luz. Nesse caso a impureza material surge por consequência do corrimento de sangue para fora do ventre, e desaparece por meio de outra ação material que é o mergulho no Mikve após sete ou quatorze dias.
Mas nem a entrada dessa impureza material no nosso corpo e nem a sua saída são materialmente detectáveis.
Morte e impureza
Rabi Yehudah Halevi nos ensinou que a impureza está sempre ligada à morte e o caso mais grave de impureza é um judeu ou judia que faleceram.
Abaixo disso está a mulher que dá à luz uma menina. Antes de dar a luz ela era um conjunto de dois corpos e duas Almas, no parto ela volta a ser um corpo e uma Alma, ou seja, menos vida.
E sendo que essa vida que saiu dela vai dar origem à outras vidas, ela fica impura 66 dias por causa da vida que saiu do seu próprio corpo, mesmo que a menina que saiu dela não só que tem vida própria mas também futuramente vai dar a luz à mais vidas.
Abaixo disso está a mulher que dá à luz a um menino. Antes de dar à luz ela era um conjunto de dois corpos e duas Almas, no parto ela volta a ser um corpo e uma Alma, ou seja, menos vida.
Abaixo disso está a mulher que perdeu o óvulo e por isso ficou Nidá. O óvulo era vida, e ele saiu dela, agora ela é menos vida.
Abaixo disso está o marido que teve relação com a mulher. O que saiu dele entrou nela, mas quem ficou impuro foi ele e não ela, porque dele saiu vida, e nela entrou.
Nessa regra se aplica também no caso da “nega tzaraat”, a manifestação espiritual que se revelava na pele da pessoa causando a morte das células, e onde há morte há impureza, e por isso a pessoa ficava impura por causa da “nega tzaraat”.
Quando acordamos de manhã estamos impuros porque durante o sono nossa Alma sobe para os céus nos colocando em uma situação de 1/60 da morte. Ou seja, durante o sono estamos menos vivos.
A purificação dessa impureza é fazer a “netilat yadaim” jogando água nas nossas mãos por meio de um recipiente seis vezes intercaladamente.
Quando cortamos as unhas ou os cabelos ou quando fazemos uma doação de sangue, também devemos fazer a “netilat yadaim” jogando água nas nossas mãos por meio de um recipiente seis vezes intercaladamente para tirar a impureza que pairou sobre nós por causa da perda de uma pequena parte de vida, uma pequena parte do nosso sangue, dos nossos cabelos ou das nossas unhas.
Mas porque a impureza paira sobre nosso corpo sempre que há nele um pouquinho de redução de vida, ou, D’us nos livre, a própria morte que traz com ela a maior de todas as impurezas?
A explicação do Zohar
Diz o Zohar que a pessoa não morre antes de ver a “She’hiná” (Presença Divina) e por causa do intenso desejo da nossa Alma em se unir à She’hiná, nossa Alma sai do corpo ao seu encontro.
Depois que a Alma sai do corpo e consequentemente aquele corpo se torna um corpo morto, é proibido deixá-lo sem que seja enterrado.
O Zohar traz vários motivos para isso:
1- Porque se deixamos passar 24 horas entre a morte e o enterro causamos uma fraqueza nas Sefirot do mundo superior, sendo que a “imagem e semelhança” Divina descritas pela Torá em relação à criação do homem se refere às Sefirot lá de cima e por isso cada um de nós está sincronizado com essas Sefirot.
E da mesma maneira que existe a infiltração do lado espiritual negativo no corpo do falecido aqui em baixo, se ele não é enterrado em 24 horas esse lado espiritual negativo acessa ao mundo superior e suga vitalidade das Sefirot lá de cima.
2- Outro motivo que não podemos atrasar o enterro é para não atrasar a ajuda Divina decretada para aquela pessoa. Porque talvez AShemtenha decretado para o bem daquela pessoa que ela vai se reencarnar naquele mesmo dia que faleceu, explicitamente para o bem dela.
E enquanto o corpo não é enterrado, a Alma não pode se apresentar na frente de Hashem, e consequentemente não pode entrar em uma próxima reencarnação. Isso pelo motivo de que não é dado para a Alma um segundo corpo enquanto o primeiro não é enterrado.
O Zohar compara esse caso à uma pessoa cuja esposa faleceu. Não é correto ele se casar com outra mulher enquanto a esposa falecida não é enterrada, assim também não é correto ele receber um novo corpo enquanto o corpo anterior não é enterrado.
3- Outro motivo para que a pessoa seja enterrada no mesmo dia é porque quando a Alma sai do corpo e precisa ir para o mundo superior, para o Gan Éden (o Paraíso) e ela não pode entrar lá enquanto não é dado a ela um novo corpo.
Mas sendo que o Gan Éden fica no mundo superior, esse novo corpo é infinitamente melhor do que o nosso corpo atual, e é denominado pelo Zohar como um “corpo de luz”.
Um corpo espiritual para usufruir do Gan Éden HaTa’hton (Baixo Paraíso) onde uma hora lá equivale à setenta anos dos maiores prazeres aqui nesse mundo, ou do Gan Éden HaElion (Alto Paraíso) onde uma hora lá é comparada à setenta anos no Gan Éden HaTa’hton.
Mas só depois que a Alma recebe esse corpo espiritual ela pode entrar no mundo superior, e isso só acontece depois que o corpo material que ela usou aqui embaixo é enterrado. Somente depois disso ela recebe o corpo espiritual e pode entrar no mundo superior.
Diz o Zohar que aprendemos isso de Eliahu Hanavi (o profeta Elias) que tem dois corpos. Um corpo que ele usa para aparecer para as pessoas aqui nesse mundo, mas com esse corpo ele não consegue subir para o mundo superior. Outro corpo ele usa para aparecer lá em cima entre os Anjos do céu.
4- Mais um motivo que traz o Zohar é o de que todo o tempo em que o corpo ainda não foi enterrado, a Alma, mesmo já não estando mais nele, sofre por causa do espírito impuro que aparece para habitar nele causando com que o corpo morto fique impuro.
E sendo que o espírito impuro aparece por causa da morte, a pessoa não deve deixar aquele corpo por uma noite sem enterrá-lo porque o espírito impuro se encontra com mais intensidade durante a noite e vaga por toda a terra procurando um corpo sem Alma para impurificá-lo, e de noite ele impurifica com muito mais intensidade
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METZORÁ
A Torá nos conta sobre manchas que poderiam aparecer nas paredes das casas, nas roupas e nas pessoas.
Essa mancha é chamada de “Nega Tzaraat” , a pessoa portadora dela é chamada de “Metzorá”.
Isso foi traduzido erroneamente como lepra, doença causada pelo Mycobacterium leprae, mas é um verdadeiro erro de tradução como veremos a seguir:
Don Itzhak Abarbanel foi o grande Tzadik que encorajou os judeus espanhóis na época da inquisição a deixarem a Espanha e não fazerem idolatria.
Ele nos explicou que a “Tzaraat” não é uma doença física, mas sim uma “praga” mandada dos céus que aparecia de uma maneira sobrenatural, e sua cura era por meio de um ritual espiritual como ele explica detalhadamente:
1- O Cohen começa a purificação do “Metzorá” com o abate de um pássaro em um pote de barro, nos mostrando que o ser humano é como um pote de barro na mão do seu artesão que vai modelando ele conforme a sua vontade.
Isso vem nos indicar que a Tzaraat vem de AShempara melhorar nossa forma espiritual, ou seja, nosso caráter.
2- Dentro desse pote de barro onde é feito o abate do pássaro são colocadas águas de fonte, em hebraico “águas vivas”, representando a Torá que está no coração de cada um de nós, e por não a guardarmos da maneira correta morre o pássaro abatido, representando que a Tzaraat aparece por meio de nossas ações e não por contágio.
3- Um pássaro vivo é mergulhado (mas continua vivo) no sangue do pássaro morto, nos ensinando que a “Tzaraat” por natureza não é doença e nem é contagiosa (como na lepra pelas vias respiratórias) mas sim um decreto Divino ligado ao comportamento errado daquela pessoa (representando pelo pássaro morto).
4- A cura de “Tzaraat” não acontece de maneira natural, mas sim de maneira milagrosa, e por isso o “Metzorá”, o portador da tzaraat, vai para o Cohen e não para o médico.
5- A “Tzaraat” da roupa, e da casa é a mesma que a das pessoas, e ela não tem nenhum vínculo a doenças do corpo humano, porque o fato de que a mesma Tzaraat poder aparecer em paredes (mineral) e em roupas (vegetal e animal) nos obriga a ver a Tzaraat como expressão sobrenatural, milagrosa, sendo que uma doença humana não pega em animais vegetais ou minerais.
Conclusão:
Depois dessa explicação tão detalhada de Don Itzhak Abarbanel, vemos que o certo é transcrever a palavra Tzaraat, e não pegar uma tradução errada, e ainda mais que essa tradução errada tem como fonte aquela mesma idolatria que por causa dela Don Itzhak Abarbanel teve que sair da Espanha com seiscentos mil judeus na inquisição!
A “Tzaraat” era um decreto Divino que afetava principalmente pessoas que causavam intrigas entre marido e mulher ou entre uma pessoa e outra, pessoas que causavam separações.
Por isso, primeiro o Metzorá era separado do acampamento (porque causou separações) e depois sua purificação envolvia dois passarinhos sendo que o passarinho tem a característica de piar na casa de um e na casa de outro, representando as intrigas que ele fazia.
Mas nem sempre a Tzaraat era um decreto Divino para corrigir a personalidade da pessoa (enriquecê-la espiritualmente), às vezes a Tzaraat era um decreto Divino para enriquecer a pessoa materialmente.
O Midrash nos conta em nome de Rabi Shimon Bar Yohái, que quando os povos de Canaã ouviram que o povo de Israel estava se preparando para vir conquistá-la, se prepararam para nos “receber” e, entre outras coisas, esconderam nas paredes e embaixo do piso das casas todos os seus tesouros para caso precisassem fugir da cidade, quando eles voltassem a reconquistá-la eles pegariam esses tesouros de volta.
Conta o Midrash que o bom D’us disse:- Prometi para o povo de Israel casas repletas com tudo de bom, e quem vai avisar eles sobre os tesouros que eles têm em casa?
Portanto, continua o Midrash, quando aparecerem sinais de Tzaraat na parede e a pessoa era obrigada a demolir aquela parede, ela encontrava os tesouros escondidos e ficava rica!
Nesse caso a Tzaraat era uma grande alegria para eles porque dessa maneira eles encontravam fortunas escondidas.
Daqui aprendemos um ensinamento básico para todos os acontecimentos de nossa vida:
Quando temos “tzarot” (sofrimentos) e achamos que estamos passando por uma fase ruim e que D’us esqueceu de nós, temos que nos lembrar que por causa dessas “tzarot” vamos descobrir tesouros de todos os tipos que não descobriríamos a não ser por causa dessas tzarot.
Como disse o rei David no Tehilim:-“de noite dormimos chorando e de manhã acordamos cantando”.
Ou seja, o mesmo sofrimento que por causa dele dormirmos chorando, ele próprio vai nos fazer acordar cantando!
E aqui não se trata de pegar experiência com as “tzarot”, o lucro real que temos delas não é o aprendizado mas sim de receber tesouros verdadeiros. Ou seja, depois que a casa pega fogo ficamos ricos de verdade!
Principalmente agora que já passamos por todos os sofrimentos, já está na hora de Mashia’h chegar, e veremos com nossos próprios olhos que nunca existiram sofrimentos, mas tudo era a embalagem da bondade Divina que estava oculta dentro dela, e agora chegou a hora de ela se revelar, em breve em nossos dias !

Shabat Shalom
Rabino Gloiber
Sempre correndo
Mas sempre rezando por você














