
Como se relacionar com um D’us Infinito?
Muitas pessoas, inclusive as com alto grau de moralidade, têm uma determinada noção sobre as “coisas pequenas” da vida – os detalhes do cotidiano e os atos menores que todo ser humano realiza, com regularidade.
E podemos perguntar: “Você acredita que D’us realmente se preocupa com esses detalhes pequenos?
Você acredita que D’us se importa com o que acontece na intimidade de nosso lar, nossa cozinha e nosso trabalho?”
O conceito de “pequenas coisas” obviamente é muito subjetivo: o que uma pessoa considera “pequeno” ou “grande” depende do ambiente cultural e social da pessoa.
Contudo, ainda que as pessoas costumem discordar sobre o que é importante e o que não o é, podemos generalizar que a maioria dos seres humanos acredita que, na vida, as “coisas grandes” importam, mas as “coisas pequenas” não importam tanto, e talvez até não importam nada.
Os pequenos detalhes que as pessoas costumam deixar de lado não são, necessariamente, coisas às quais se opõem, em princípio.
Os pequenos detalhes podem também ser coisas que causam indiferença, na pessoa, ou mesmo que elas considerem benéficas; contudo, não são especialmente importantes.
Em muitos casos, a atitude de não se preocupar com as “pequenas coisas” na vida pode apenas ser uma fachada para a preguiça.
Mas a questão se D’us se importa ou não com os pequenos detalhes é uma pergunta válida e deve ser feita.
De fato, essa pergunta está no centro do que trata a festa de Rosh a Shaná quando o Tribunal Celestial examina o “arquivo” de cada ser humano e o julga, segundo seus atos.
A reza de Rosh a Shaná nos conta que D’us examina e julga todos os nossos atos.
Mas, por que razão o Todo Poderoso deveria se importar com nossas ações cotidianas, os pequenos detalhes, bons ou maus, da vida?
Pode-se argumentar que D’us poderia se importar com o que é notícia, guerras e terrorismo, uma pandemia mundial, eleições em Israel, eventos que afetam a vida de milhões ou bilhões de pessoas.
Mas por que Ele deveria se importar se um único indivíduo come kasher?
Por que Ele deveria se preocupar se a pessoa diz uma Benção antes de comer alguma coisa, cumpre os mandamentos do Shabat, ouve o toque do Shofar em Rosh a Shaná ou come na Sucá durante a festa de Sucot?
Por que Ele deveria se importar se uma pessoa jejua ou não em Yom Kipur?
Afinal, D’us é o Senhor do universo, onde planetas e estrelas, movimentam-se como meros pontinhos dentro de uma infinidade de galáxias.
Cada um de nós, na Terra, é apenas um indivíduo entre bilhões de outros, e mesmo o planeta e a galáxia onde habitamos são minúsculos se comparados ao restante do universo.
Dentro de nossa estrutura, muito limitada, nossa família, amigos e talvez nossa comunidade, cada um de nós pode ser importante.
Mas quando olhamos para o mundo a partir de uma perspectiva mais ampla de tempo e espaço, nossas atividades diárias e mesmo nossa própria existência parecem insignificantes.
Portanto, não faz sentido crer que o dono do Universo pudesse ou devesse se importar com cada um de nós e com os pequenos detalhes de nossa vida, nossos pequenos atos, bons ou ruins.
Essa pergunta é igualmente válida em relação às nossas rezas. Quando uma pessoa reza para D’us, quais as chances de ser ouvido?
A pergunta se D’us presta atenção a cada pessoa, e especialmente aos detalhes de sua vida, é um problema fundamental e profundo.
Muitos optam por ignorar essa pergunta, enquanto outros agem como se não houvesse respostas à ela.
Em quase todos os casos, a origem dessa pergunta e toda a confusão que ela gera é a imagem infantil de D’us que os adultos geralmente “pintam” para as crianças e que acaba permanecendo conosco mesmo depois de crescermos.
Essa imagem infantil de D’us é alguém com uma longa barba branca, sentado em algum lugar dos Céus, milhares de quilômetros acima de nós, com relâmpagos em uma mão e um saco de balas na outra.
Quando adultos, muitos de nós substituem essa imagem, compreendendo que é infantil e até uma blasfêmia, com a ideia de que D’us é como o diretor de uma grande empresa.
Em grandes empresas, um funcionário mediano tem pouco ou nenhum contato com o diretor. Os funcionários são apenas uma pequena peça em uma grande engrenagem.
O funcionário teria de fazer algo extraordinariamente bom ou ruim para ter a atenção do diretor.
Na falta de qualquer dos dois cenários, é provável que o diretor nunca vá a ter contato com o funcionário, mesmo que este trabalhe para ele.
À medida que subimos a cadeia hierárquica, esse padrão é amplificado.
Por exemplo, o Primeiro Ministro de Israel é responsável pela segurança e bem-estar de todos os cidadãos do país, ainda que não os conheça pessoalmente e nem se importe com a vida pessoal deles.
Quando um cidadão escreve uma carta ao Primeiro Ministro, é algum secretário quem responde.
Talvez apenas pessoas muito famosas, excepcionais, recebam às vezes uma resposta pessoal. E pode-se entender a razão para ser assim.
Se o Primeiro Ministro fosse responder a cada uma das cartas que lhe são enviadas, não teria tempo nem forças para executar seu trabalho.
Os Chefes de Estado desempenham um papel vital e têm o poder de impactar a vida de milhões de pessoas. No entanto, até eles funcionam dentro de uma esfera limitada de poder e influência, comparada ao universo inteiro.
Evidentemente, nenhum deles pode ser comparado a D’us, Criador e Mestre de tudo o que existe.
Mas pode-se concluir que se um Chefe de Estado não pode relacionar-se com os cidadãos de seu país individualmente, e muito menos preocupar-se com os detalhes da vida de cada um, imaginem o quanto mais essa ideia se aplica a D’us, o responsável não apenas por nosso planeta, mas por todo o universo.
Se um Chefe de Estado é inacessível aos cidadãos, como pode o Senhor de todo o universo estar acessível a cada um de nós?
Aqueles que imaginam D’us como um líder muito poderoso julgam que assim fazendo estão expressando profundo respeito pelo Altíssimo.
Será que D’us não tem nada melhor a fazer do que intrometer-se nos mínimos detalhes da vida de cada ser humano. Pois mesmo um pai, o quanto ele sabe da vida de seus filhos, o quanto isso o preocupa?
São tantos os mínimos detalhes sobre coisas que desconhecemos totalmente. De modo geral, os seres humanos se preocupam com o que é grande e ao pensar na vastidão do universo, imaginam que D’us, que é incomparavelmente mais importante do que o ser humano mais poderoso, certamente não tem como preocupar-se com detalhes.
Mas quando dizemos que D’us não está interessado ou envolvido com detalhes – com as “coisas pequenas” que fazemos ou deixamos de fazer, na realidade, estamos imaginando o Altíssimo de acordo com as nossas medidas. Independentemente do quão aumentemos a concepção Divina, continua sendo a nossa concepção, a nossa medida.
Podemos ver D’us como sendo particularmente importante. No entanto, por maior que seja a nossa concepção de D’us, continua sendo uma projeção muitíssimas vezes aumentada de nossa figura humana finita.
Em nossas rezas e Bênçãos, nos referimos a D’us como Mele’h a Olam, Rei do Mundo.
E, de fato, o reinado Divino é um dos principais temas de Rosh a Shaná. Contudo, precisamos ter cuidado para não interpretar erroneamente essa metáfora.
Há uma diferença fundamental entre D’us e qualquer ser humano, por mais importante e poderoso que seja um Chefe de Estado, ou até mesmo um rei.
A razão para um Chefe de Estado não estar a par das preocupações diárias dos cidadãos de seu país é por ele ter uma mente limitada, além de tempo e energia limitados.
Independentemente de quão talentoso e cheio de energia seja, há um limite no que ele consegue fazer em um dia limitado a 24 horas. Por essa razão, ele precisa saber fazer suas escolhas.
O líder de um país, ou qualquer pessoa que esteja no alto de uma cadeia hierárquica, só consegue concentrar-se em questões macro, no que é mais importante.
Ele não se pode dar ao luxo de dedicar seu tempo e sua mente a detalhes pequenos, senão seu funcionamento será prejudicado.
Qualquer líder, até o mais capaz e batalhador, deve delegar os assuntos importantes a seus ministros ou pessoas de confiança, sozinho não consegue fazer tudo.
No entanto, diferentemente de Chefes de Estado, D’us é Infinito.
A infinitude é um conceito difícil de ser entendido, mesmo na Matemática.
O infinito não tem limites: é ilimitado o número de detalhes que pode conter.
Além disso, uma constatação matemática básica prova que em relação ao infinito, qualquer outro número é zero e qualquer outro tamanho é igual.
Um ou um trilhão, se comparados com o infinito, são exatamente iguais a zero.
Sob o ponto de vista teológico, o fato de que D’us é Infinito significa que para Ele, todos os detalhes são iguais em importância ou falta de importância, independentemente de seu tamanho.
Comparada ao Infinito, uma galáxia, com todas as suas estrelas, é exatamente igual às menores partículas de um átomo.
Assim sendo, não faz sentido algum que D’us se preocupe com o que ocorre em uma galáxia e não com o que ocorre a um tufo de grama.
Comparado a D’us Infinito, sua magnitude é exatamente igual.
Se D’us se preocupa com todo o universo, que, por maior que seja, é finito e limitado, pode-se dizer que todas as suas partes mais ínfimas têm igual importância para Ele.
O conceito de que, para um D’us Infinito, não há o grande e o pequeno, é um dos temas das rezas de Rosh a Shaná, quando o hazan repete a reza de Mussaf, ele fala um trecho que afirma que D’us “trata na igual medida o grande e o pequeno”.
Essa é uma das maneiras de expressar a ideia de que as diferenças entre grande e pequeno, importante e sem importância, são insignificantes para Aquele que é Infinito, que está além de todas as limitações, Aquele para Quem as limitações nada representam.
De forma semelhante, diz o Tehilim 139: “Você está no meu íntimo e me conheces totalmente. Você sabe quando me sento ou levanto e antecipa o meu pensamento onde quer que eu esteja.
Você está comigo quando estou dormindo ou no caminho, e conhece todos os meus passos…. Se eu subisse para o céu, lá eu Te encontraria, e se descesse às profundezas, também lá você estaria”.
Esse Tehilim indica que D’us sabe em tempo real onde estamos e tudo o que fazemos, e que para Ele, os Céus e as profundezas, o distante e o próximo, a escuridão e a luz, é tudo igual.
Rabi Avraham Ibn Ezra (1089-1164) – um dos maiores poetas e filósofos da Idade Média – escreveu que esse Tehilim é o mais importante de todos.
O Tehilim 113, o primeiro do Hallel, expressa uma ideia similar. Por um lado, declara: “Muito acima de todas as nações está o Eterno, e acima dos céus Sua glória”.
A noção de que D’us está acima e além de tudo é indiscutível: não pode haver semelhança ou comparação entre D’us e Suas criações.
Mas, o Tehilim continua: “Quem é como o Eterno, nosso D’us, que está nas Alturas e vê o que se passa nos Céus e na Terra?”.
O que esse Tehilim nos diz é que, por mais elevado que seja D’us, Ele está ciente de tudo o que acontece no Céu e na Terra.
Porque se D’us se encontrasse apenas no Céu, aqui na Terra e especialmente na privacidade do nosso lar e do nosso trabalho, poderíamos fazer o que bem quisermos.
Se fosse verdade que D’us se encontra apenas no Céu e se preocupa apenas com as questões macro do universo, nós poderíamos facilmente fazer pequenas coisas erradas, “por trás de suas costas”, de forma escondida, pois esse grande D’us, que é tão ocupado com as coisas importantes, pode não me ouvir e consequentemente não me repreender.
Mas esse Tehilim desfaz, em pedacinhos, a ilusão de que D’us é grande demais para estar ciente e envolvido nos detalhes mínimos do universo.
O Tehilim nos diz que D’us cuida dos Céus e da Terra. O Infinito está em toda parte. Portanto, Céu e Terra são iguais para Ele.
Comparado a D’us Infinito, uma criatura pequena não é menos importante que um Anjo no Céu.
Mas para nós, criaturas pequenas e limitadas que somos, há uma diferença tremenda entre uma galáxia e um átomo. Para D’us, essa diferença e todas as demais são insignificantes.
Em outras palavras, a capacidade de ver todos os detalhes é parte da Infinitude: constitui uma das definições de ser Infinito.
Assim como nada é grande demais para D’us, nada é pequeno demais para Ele.
Nada é insignificante ou pequeno demais para passar despercebido, pois D’us tem uma visão plenamente abrangente, que contém tudo que se possa imaginar.
Assim sendo, acreditar que algo é tão insignificante que pode escapar da atenção Divina é um absurdo total.
Continua….



