
YTRÓ
Nossa Parashá nos conta sobre a entrega da Torá no Monte Sinai e começa com as palavras “E ouviu Ytró, sacerdote de Midiã, sogro de Moshe, tudo o que fez AShem (D’us) para Moshe e para Israel seu povo, porque AShem tirou o povo de Israel do Egito.”
Por que a Torá nos lembra que ele era o sacerdote de Midiã junto com o fato de ele ser o sogro de Moshe, se na época em que ele se tornou o sogro de Moshe ele já tinha abandonado a idolatria?
Quando nosso povo saiu do Egito há mais de 3.338 anos atrás, o mundo habitado se encontrava entre o vale do rio Indo e o rio Nilo. Isso era o mundo inteiro e o resto era floresta virgem.
Enquanto o faraó era a maior autoridade civil do mundo, Ytró era a maior autoridade religiosa.
Tanto o faraó quanto Ytró tinham reconhecimento internacional, eram temidos e respeitados por todos, e o mundo inteiro alinhava suas escolhas às escolhas deles.
AShem (D’us) poderia ter dado a Torá antes, mas esperou até o momento em que o mundo estivesse definido e estruturado.
Isso aconteceu na época de Moshe, época em que tanto o Faraó quanto Ytró representavam o mundo inteiro e AShem esperou o reconhecimento deles para nós entregar a Torá no Monte Sinai.
Na praga do granizo, o faraó declarou que AShem é o Tzadik e ele e seu povo são transgressores.
Ou seja, todo o povo egípcio apoiava totalmente o faraó, e por isso, quando o faraó reconheceu a grandeza de AShem, ele pôde representar também seu povo nesse reconhecimento.
Quando o mar vermelho se fechou sobre o exército egípcio e todos os soldados egípcios morreram, AShem (D’us) teve que fazer um milagre dentro de outro milagre para o faraó continuar vivo naquela situação.
O principal motivo para isso foi o fato de AShem querer o reconhecimento definitivo do faraó que era a maior autoridade civil do mundo.
E sendo que o reconhecimento do faraó era respeitado por todos os governantes do mundo, assim AShem recebeu o reconhecimento mundial dentro dos padrões civis.
Sabemos que quando Moshe se casou com Tzipora, filha de Ytró, naquela época Ytró já havia abandonado todas as idolatrias do mundo e se aproximado de AShem, e por isso ele foi hostilizado pelo seu povo e teve que pedir para suas próprias filhas pastorearem seu rebanho.
Quando Ytró ouviu que o povo de Israel saiu do Egito, ele expressou seu reconhecimento definitivo dizendo: “Agora eu sei que AShem é maior do que todos os deuses”, expressando dessa forma que ele é a pessoa autorizada a determinar isso, sendo que ele era a única pessoa no mundo que já havia sido o sacerdote de todos os deuses e, portanto, poderia fazer essa comparação.
Nossos Sábios discutem sobre o que ouviu Ytró, e por causa disso decidiu se converter oficialmente ao judaísmo, e no final chegaram a conclusão de que o que levou Ytró a tomar sua decisão definitiva foi o fato de ter chegado a ele a notícia da abertura do mar vermelho e da guerra de Amalek.
A expressão de Ytró foi de que “o que eles fizeram aconteceu para eles”. No caso da abertura do mar vermelho podemos entender isso perfeitamente.
Os egípcios assassinaram crianças recém-nascidas jogando elas na água, e no final eles morreram embaixo da água, mostrando a justiça Divina de que quando uma pessoa não se arrepende do mal que fez, ela recebe o castigo de “medida por medida”, o que ela fez é feito para ela.
Mas onde vemos o conceito de “medida por medida” citado por Ytró no caso da guerra de Amalek?
A Guemará em San’hedrin 99/b nos conta sobre Timná, irmã de Lotan.
Timná pertencia à realeza da sua região. Ela queria se converter ao judaísmo e veio para Avraham, Itzhak e Yaacov, mas eles não a aceitaram.
Por causa disso, ela optou por ser a concubina de Elifaz, que era o primogênito de Essav.
Sendo que ela não conseguiu entrar no judaísmo pela porta da frente, ela entrou pela porta de trás!
Diz a Guemará que ela preferiu ser uma concubina dentro do nosso povo, a ser uma princesa dentro de outro povo.
O filho dela foi Amalek, e a Guemará explica que esse povo é o povo que mais nos faz sofrer.
A Guemará conclui que o motivo para isso é que nossos patriarcas não deveriam afastá-la.
Do fato citado, entendemos um detalhe importante no mandamento do extermínio de Amalek.
A Guemará nos conta que os netos de Haman, que era descendente de Agag, rei de Amalek, se converteram ao judaísmo e estudaram Torá em Bnei Brak.
Daqui vemos que quando um amalequita se converte ao judaísmo ele é considerado exterminado.
Em outras palavras, alguém que faz uma conversão verdadeira ao judaísmo, se torna judeu de povo, raça, ascendência e etnia.
Ele se torna filho de Avraham Avinu. Se torna judeu retroativamente, um convertido que se converte é como um nenê que nasce, e por isso os netos de Haman foram considerados exterminados, por serem considerados como se tivessem nascido naquele momento.
A ascendência deles foi trocada pela nossa. Eles deixaram de existir como Amalek e começaram a existir como filhos e filhas de Avraham.
Foi isso que deduziu Ytró quando disse que “o que eles fizeram”, que não aceitaram a existência de Timná no nosso povo, “aconteceu para eles”, os amalekitas não aceitaram a nossa existência.
Mas como vimos no caso dos netos de Haman, podemos reverter isso.
A diferença entre nós e os outros povos foi identificada por Ytró. Ele viu o “medida por medida” que aconteceu aos egípcios, e viu o “medida por medida” que aconteceu para nós.
Percebeu claramente que nós não conseguimos chegar ao nível de maldade deles, nível sem conserto.
Mas por mais que um judeu afunde, ele não consegue afundar tanto, e sempre ainda sobra a possibilidade de consertar.
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O conserto de Caim
A Torá nos conta que Adam e Havá tiveram três filhos e três filhas. Os dois primeiros filhos foram Caim e Hevel (Abel).
Diz o Zohar que quando AShem criou o primeiro homem ele incluía a primeira mulher.
AShem fez um homem de terra que era um lado homem e o outro lado mulher. Depois disso AShem fez o homem adormecer e separou dele o lado mulher.
Adam a chamou de Havá porque ela seria a mãe de todas as criaturas, e com ela ele se casou.
Em outros termos, Adam e Havá se casaram consigo próprios, sendo que desde o início eles eram uma só pessoa.
Na segunda geração, Cain e Hevel se casariam com suas irmãs, e para isso com Caim nasceu uma irmã gêmea e com Hevel nasceram duas.
Diz o Midrash que quando eles tinham quarenta anos, Caim fez um sacrifício para AShem. Uma oferenda de linho que tem como raiz espiritual a Guevurá lá em cima.
Caim tinha a intenção de fazer a sincronização com o atributo Divino da Guevurá e fazer com que o mundo se conduzisse dessa forma.
Hevel (Abel) fez uma oferenda de lã cuja fonte espiritual é a Hessed.
Ele queria fazer a sincronização do mundo com o atributo Divino da Hessed para que esse mundo se tornasse um mundo de bondade, um mundo melhor.
Caim assassinou Abel por dois motivos.
Para roubar uma de suas duas esposas, que Cain achava que pertencia a ele por direito, e para determinar lá em cima a “linha dura” em todos os assuntos espirituais.
Depois desse assassinato, AShem se revelou para Cain e deu a ele sete gerações para retificar sua Alma. Não vimos que isso aconteceu.
Na sétima geração Caim foi morto, perdeu aquela oportunidade de se retificar.
Diz o Zohar que Batya, a filha do faraó, deu à Moshe o nome Moshe por Divina Providência.
A palavra Moshe em hebraico משה contém as iniciais de três nomes: Hevel, Shet e Moshe.
Moshe era a reencarnação de Hevel e Shet, e entre os trabalhos que ele veio fazer nesse mundo estava o conserto de Cain.
Nossa Alma Divina tem cinco níveis, mas somente três deles se revestem nesse mundo.
Diz o Ari Zal que o lado bom da Alma Divina de Cain era maior do que o da Alma Divina de Hevel, mas o lado ruim da Alma de Cain era maior do que o lado bom da alma dele.
O contrário disso era Hevel. O lado bom da Alma de Hevel não era tão grande quanto o da Alma de Cain, mas o lado ruim da Alma de Hevel era menor do que o lado bom dela.
Ytró era a reencarnação de Cain.
Rabi Shimshon de Ostropoli foi um grande cabalista que viveu na Polônia há 400 anos. Ele nos conta que quando uma pessoa morre assassinada, o conserto da Alma do assassino quando não se arrepende do que fez, tem que ser feito “medida por medida” pela pessoa assassinada.
Assim, Moshe, que era a reencarnação de Hevel, teve que matar o egípcio que era a reencarnação do nível Nefesh de Cain quando esse egípcio estava tentando fazer novamente o que fez na reencarnação anterior, assassinar alguém para roubar sua esposa.
Desse modo, Moshe, consertou “medida por medida” o nível mais baixo da Alma de Cain, o nível Nefesh.
Outro motivo que levou Cain a assassinar Hevel, foi para roubar sua função em relação ao trabalho Divino.
Kora’h que era a reencarnação do nível Rua’h de Cain. Não só que Kora’h não retificou o que tinha que retificar, mas também tentou assassinar novamente, alegando que Moshe era um falso profeta e consequentemente passível de pena de morte conforme a própria Torá.
Moshe disse para Kora’h que se ele não voltasse atrás do que estava fazendo e se eles não se arrependesse do que estava tentando fazer, a terra iria se abrir e ele iria morrer dessa forma.
Nossa Alma Divina desce para o mundo com a memória das reencarnações anteriores no seu subconsciente, e por isso Moshe lembrou à Kora’h que a terra iria se abrir paralembrá-lo de como ela se abriu para receber o sangue de Hevel quando foi assassinado e tentar retificar isso sem precisar chegar ao extremo de “medida por medida”.
Kora’h não voltou atrás e a terra se abriu para ele. E assim, o nível Rua’h de Cain também foi consertado “medida por medida”.
Ytró era o nível mais alto da Alma de Cain, o nível Neshamá.
Tzipora era a reencarnação daquela gêmea que foi o pivô do assassinato.
Ytró devolveu para Moshe sua esposa Tzipora consertando o que fez Cain.
Ytró também se converteu ao judaísmo, aceitando Moshe como o responsável por todos os assuntos religiosos do nosso povo.
Ytró também salvou a vida de Moshe com o conselho que deu de dividir o trabalho de Moshe em juízes de 10, de 50, de 100 e de 1.000 pessoas, delegando o trabalho de Moshe para 78.600 juízes, e somente o que eles não conseguiam resolver de forma alguma chegaria até Moshe.
Ytró fez a completa retificação da Alma de Cain, uma Alma cujo lado bom era maior do que a Alma Divina do próprio Moshe, Ytró conseguiu refiná-la.
Por isso, nossa Parashá na qual AShem nos entregou a Torá não é chamada de “Torá”, mas é chamada de Ytró, nos mostrando que o principal da Torá é colocarmos ela na prática.
Shabat Shalom
Rabino Gloiber
Sempre correndo
Mas sempre rezando por você
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