
Tetzavê
Nossa Parashá nos conta sobre as roupas dos Cohanim, os sacerdotes do nosso povo
Rabbi Anani bar Sasson na Guemará nos conta que essas roupas tinham uma característica espiritual muito interessante: elas faziam a reparação das nossas transgressões.
Sendo que D’us é a essência do bem e a natureza de quem é bom é fazer o bem, quando tomamos a decisão de não fazer mais uma coisa ruim e nos arrependemos de tê-la feito, ele nos dá varias oportunidades de retificação para não precisarmos chegar à “medida por medida”, ou seja, para não precisarmos sofrer relativo ao mal que fizemos.
Um exemplo disso é o Shabat que serve como reparação para a transgressão da idolatria.
Imagine um judeu que volta da Índia depois de ter rezado para todas as milhares de estátuas que tem lá, ter feito oferendas para as estátuas e etc etc etc.
E no final essa pessoa se arrepende de toda a idolatria que fez e vai perguntar ao Rabino o que fazer:
– Rabino, diz a pessoa, eu acabei de voltar de uma peregrinação religiosa de um ano na Índia. Não teve uma estátua que eu não me prostrei na frente dela, que não rezei ou fiz uma oferenda para ela. Mas agora estou profundamente arrependido de ter feito isso. Como faço para consertar o que fiz? Vou sentar em um formigueiro?
:- D’us nos livre, responde o Rabino. Você vai consertar isso da seguinte maneira:
Compre uma roupa muito bonita para Shabat, faça quatro Halot ,(pães para Shabat), compre um peixe bem grande, tire as escamas e prepare ele bem gostoso para Shabat. Compre dois quilos de uva e faça um suco de uva bem gostoso para o kidush. Faça muitas saladinhas e sobremesa, comemore o Shabat com a sua família com muita alegria, e essa é a sua retificação!
:- Mas Rabino, exclama o homem espantado, isso parece mais um prêmio do que um castigo!
:- Você decidiu que não vai mais fazer idolatria? Se arrependeu do que fez? Agora tem dois jeitos de retificar, um muito bom e o outro muito ruim. Qual você escolhe?
Como nesse exemplo verídico em relação à idolatria, assim também acontece com todas as transgressões da Torá.
Em primeiro lugar temos que tomar a decisão de não fazer a coisa ruim novamente e se arrepender de tê-la feito. O que sobrou agora é retificar o que fizemos.
Se não retificarmos de maneira positiva, essa pendência continua. Quando chega o limite, D’us nos livre, somos retificados à força e de maneira negativa, “medida por medida”, ou seja, o que fizemos de errado acontece para nós.
Rabi Anani nos conta que no livro de Vaykrá a Torá fala sobre os Korbanot, os sacrifícios de animais, e logo em seguida fala sobre as roupas dos Cohanim. Nos indicando que da mesma maneira que os Korbanot vem para retificar as nossas transgressões, dessa mesma maneira as roupas dos Cohanim retificam as nossas transgressões.
Quando essas roupas eram usadas pelo Cohen Gadol no Mishkan que era um Templo móvel, ou posteriormente no Beit Hamikdash que era o Templo Sagrado de Jerusalém, cada uma delas reparava um tipo de transgressão diferente.
Cada roupa com a sua função
ktonet, túnica do Cohen Gadol, retificava os assassinatos
Mihnassaim, a calça do Cohen Gadol, retificava as relações ilícitas
Mitznefet, o turbante do Cohen Gadol, retificava a prepotência
Avnet, o cinturão do Cohen Gadol, retificava os maus pensamentos
Hoshen, a jóia de doze pedras preciosas que o Cohen Gadol tinha sobre o peito, retificava os erros de legislação
Efod, o avental do Cohen Gadol, retificava a idolatria
Meil, o manto do Cohen Gadol, retificava a difamação
Tzitz, como uma tiara de ouro sobre a testa do Cohen Gadol, retificava a arrogância
A explicação do “Rosh”
Rabeinu Asher ben Yehiel, conhecido como “o Rosh”, nasceu em Köln na Alemanha antiga aproximadamente no ano de 1250.
O Rosh era descendente do grande rabino, Rabi Eliezer ben Nathan, conhecido como o Raaban. Um dos seus oito filhos foi Rabi Yaacov Baal Haturim, autor do Arba’ah Turim, famoso código de lei judaica.
Seu principal professor foi o o grande Rabi Meir de Rothenburg que naquela época vivia em Worms na Alemanha antiga. Naquela época o Rosh também trabalhou com empréstimos e a situação financeira dele era muito boa
Quando Rabi Meir de Rothenburg foi preso pelo governo que queria extorquir a comunidade judaica, o Rosh quis pagar uma fiança astronômica exigida por eles para libertá-lo, mas Rabi Meir recusou, com medo de que isso servisse de incentivo para a prisão de outros rabinos.
Após isso, o Rosh assumiu a posição do rabino Meir em Worms. Porém, foi obrigado a emigrar para a França e depois para Toledo na Espanha, onde se tornou o Rabino da cidade por recomendação de Rabi Shlomo ben Aderet conhecido como Rashba.
Rabeinu Asher faleceu em Toledo no ano de 1328. Ele trouxe o espírito Talmúdico rigoroso e estreito da Alemanha antiga para a Espanha.
Em um dos seus comentários sobre a Guemará, o Rosh explica que as roupas do Cohen Gadol não conseguiram retificar as transgressões de idolatria, assassinatos e relações ilícitas na época do primeiro Beit aMikdash. O Beit aMikdash foi destruído e nosso povo exilado para a Babilônia por causa dessas transgressões.
O motivo para isso, explica o Rosh, é que eles não fizeram Teshuvá, não se arrependeram das atrocidades que tinham feito e não tomaram a decisão de não fazê-las novamente.
Mas se tivessem feito Teshuvá, as roupas do Cohen Gadol retificariam as transgressões, o Beit aMikdash não seria destruído e nosso povo não seria exilado.
Porque entre as roupas do Cohen Gadol não havia sapato e meia
Quando rezamos estamos falando com o Rei. Quando falamos com o Rei devemos estar vestidos adequadamente e ninguém iria visitar um Rei descalço.
Como pode ser que o Cohen Gadol, a pessoa que nos representava na frente do rei , não só que deveria estar descalço mas também se ele colocasse uma roupa a mais, como por exemplo os sapatos, seu trabalho seria inválido.
Ou seja, ele nem poderia entrar no Mishkan ou no Beit aMikdash assim
Don Itzhak Abarbanel, o grande Tzadik que encorajou os judeus a fugirem da Espanha na inquisição, explica que quando AShem se revelou para Moshe Rabeinu pela primeira vez na ocasião do arbusto incandescente, pediu para Moshe tirar os sapatos indicando que a saída do Egito aconteceria de maneira sobrenatural e não por meio do nosso próprio esforço.
O mesmo podemos dizer sobre o Cohen no Mishkan ou no Beit aMikdash que eram lugares aonde a revelação Divina acontecia de maneira sobrenatural.
Rabino Gloiber
Sempre correndo
Mas sempre rezando por você
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