
Nossa Parashá nos conta que “O rei do Egito conversou com as parteiras judias e o nome de uma era Shifra e o nome da outra era Pua… ”
Essa linguagem por mais linda que seja não é a linguagem usual da Torá e isso nos indica que por trás dela existe um ensinamento oculto.
Geralmente a Torá chama qualquer rei do Egito de Faraó, e porque nesse caso o versículo usa o termo de “rei do Egito”?
As parteiras judias se chamavam Yoheved e Miriam, e porque o versículo diz que o nome de uma era Shifra e o nome da outra era Pua?
Rashi explica que Yoheved era apelidada de Shifra porque ela cuidava extremamente bem de cada criança que nascia, “melhorava” a criança.
A filha de Yoheved, Miriam, foi apelidada de Pua porque ela conversava com as crianças recém nascidas para acalmá-las.
As pessoas chamavam Yoheved e Miriam de Shifra e Pua lembrando a bondade que essas parteiras tinham no seu coração e se dedicavam ao seu trabalho com muito amor e carinho.
O faraó era conhecido pela sua imensa crueldade e com certeza não importava para ele que Yoheved cuidava bem dos recém nascidos e Miriam conversava com eles para acalmá-los.
Ele às chamou para lhes dar a ordem de assassinar os meninos recém nascidos, então porque ele às chamou pelo apelido que enfatizava as suas boas qualidades?
A estratégia do Faraó
Rav Moshe Weber foi um grande Tzadik que viveu em Yerushaláim na época que eu cheguei lá.
Ele me contou que por trás dessa linguagem se oculta a estratégia que o faraó tentou usar para persuadir essas duas mulheres extremamente boas à se tornarem duas grandes assassinas: a “estratégia do reconhecimento”.
Em primeiro lugar elas são convidadas pelo “Rei do Egito”, a pessoa mais importante do país mais importante, a mais alta autoridade da maior potência do mundo.
Lá elas recebem o reconhecimento do próprio Rei pelo maravilhoso trabalho que estão fazendo a ponto de terem recebido do povo os títulos lo de “Shifra” e “Pua” que agora serão reconhecidos e oficializados pela mais alta autoridade do país, pelo próprio Rei que às chama por esses nomes.
A intenção do Faraó era de que por meio disso essas pobres mulheres aparentemente tão discriminadas por não pertencerem à elite da sociedade egípcia, ficariam repletas de orgulho de si próprias e fariam de tudo para nunca perder esse reconhecimento, o “prêmio Nobel” das parteiras!
Agora elas estavam prestes a entrar na história! Finalmente se tornariam pessoas importantes!
Estando cheias de orgulho elas estariam dispostas a fazer tudo para não abrir mão desse “poder” que receberam por meio do reconhecimento oficial do faraó, estariam dispostas a fazer qualquer coisa para que o faraó não ficasse decepcionado com elas, o que poderia fazê-las perder esse reconhecimento e voltarem a ser as simples parteiras que sempre foram.
A proposta do Faraó
Depois de “amarrá-las” por meio desse “reconhecimento oficial”, o faraó faz para elas a proposta de elas se tornarem as heroínas do povo.
A proposta é : “Quando vocês fizerem o parto das mulheres judias, vejam na hora do parto, se é um menino vocês devem matá-lo, se é uma menina devem fazê-la viver.
Se a proposta do faraó era de assassinar os meninos, por que ele cita as meninas também?
Por trás disso se encontra a parte principal dessa estratégia. Elas não se tornarão assassinas de meninos mas sim salvadoras de meninas, e nesse caso o único jeito de salvar as meninas é matando os meninos.
O faraó propõe para elas que no lugar de ele fazer um decreto para assassinar toda criança judia que nascer, se elas cooperarem com o governo e assassinarem os meninos na hora do parto, elas estarão salvando as meninas, mas se não fizerem isso despertariam a fúria do faraó que poderia decretar a morte de todas as crianças.
E dessa forma, não só que elas perderiam o reconhecimento do faraó mas também se tornariam responsáveis pela morte das meninas, e aí é que elas seriam chamadas de assassinas de verdade e consequentemente perderiam o reconhecimento até das pessoas simples que até agora às chamavam pelos títulos de reconhecimento pelo seu lindo trabalho, Shifra e Pua.
Salvando a vida de todas as meninas judias e dando à elas a oportunidade de subirem na vida recebendo uma educação egípcia totalmente subsidiada pelo governo para ajudá-las a mais futuramente se casarem com maridos egípcios sendo que não haveriam mais homens judeus por causa do decreto do faraó, elas se tornariam as mulheres mais importantes do país.
O “yetzer a rá”, nossa má inclinação, vive de orgulho e de justificativas, ele está disposto a justificar qualquer coisa em honra ao próprio orgulho.
O faraó que era o principal representante do “yetzer a rá” nesse mundo já deu para elas o orgulho junto com a justificativa.
E assim ele estava certo de que elas não abririam mão da honra que receberam dele e usariam a justificativa de estarem salvando a vida das meninas e transformando elas de pobres judias em ricas egípcias.
E mesmo que para isso seriam obrigadas a matarem os meninos em prol dessa causa tão nobre, elas não seriam assassinas de meninos mas sim heroínas, salvadoras de meninas.
A resposta das parteiras:
A Parashá continua contando que as parteiras tiveram temor à D’us e não fizeram como disse à elas o Rei do Egito, mas fizeram os meninos viverem e até levando para as suas mães água e comida também .
Ou seja, o único temor delas era de perder o “reconhecimento Divino”.
O único orgulho delas era o de ter o “reconhecimento Divino” pelo o que elas estão fazendo, e nunca, D’us nos livre, trocar isso pelo inútil reconhecimento do ser humano mesmo sendo ele o ser humano mais importante da face da terra.
E isso vemos também na resposta que elas deram ao faraó.
Vendo que a sua estratégia não deu certo o faraó mandou chamá-las e perguntou:- Porque vocês fizeram isso? Fizeram viver os meninos!
Ou seja, não só que não mataram os meninos mas ainda levaram água e comida para as mães.
O faraó as chamou para retirar o seu “reconhecimento oficial” na esperança de que elas pedissem uma segunda chance para não perder o enorme orgulho de si próprias que receberam pelo reconhecimento oficial dele.
Mas a resposta delas foi :- As mulheres judias não são como as egípcias, elas são como as feras do campo que não precisam de parteiras, mesmo antes de chegarmos elas já dão a luz.
O faraó sabia que as mulheres judias chamavam as parteiras de Shifra e Pua não só porque sim precisavam de parteiras mas até mais do que isso, elas se dedicavam às parturientes muito mais do que precisavam.
Como agora tudo pôde ter mudado de um extremo ao outro?
A mensagem delas estava clara! As mulheres judias são comparadas às feras selvagens que não precisam do ser humano para cuidar delas mas são cuidadas diretamente por D’us, e toda a nossa participação nesses cuidados é totalmente decorativa.
Dessa maneira elas também responderam para o faraó o quanto para uma mulher judia como elas o reconhecimento dele é totalmente inútil e não faz para elas a mínima diferença, sendo que elas também são como as feras selvagens que não precisam do reconhecimento do ser humano porque são cuidadas diretamente por D’us.
Por isso quando Yaakov abençoou os seus filhos ele os comparou à animais selvagens como Yehudá que foi comparado à um filhote de leão, Biniamin à um lobo, Naftali à um alce e etc.
A Parashá continua nos contando que D’us recompensou as parteiras por elas terem tido temor à D’us e não aos seres humanos, e fez para elas “casas”.
Nossos Sábios explicam essa linguagem de “casas” como sendo “famílias nobres”.
De Yoheved saiu Aharon que se tornou o primeiro Cohen, nosso primeiro sacerdote, e Moshe que por meio dele a tribo de Levi recebeu uma importância tão grande dentro do no nosso povo.
De Miriam saiu o Rei David e toda a sua descendência incluindo o Mashia’h que vai ser um descendente do Rei David.
Não só que D’us salvou Yoheved e Miriam do faraó que poderia com certeza matá-las por elas não o terem obedecido, mas também D’us levou em conta o fato de elas terem aberto mão da falsa honra que lhes foi oferecida pelo faraó e as indenizou dando à elas uma honra verdadeira.
Aprendemos daqui que não devemos nos entusiasmar com a honra, com prêmios Nobel e com o reconhecimento que recebemos nos países em que as nossas comunidades se encontram.
Porque geralmente isso desenvolve o nosso ego muitas vezes tirando ele do nosso controle, nos fazendo concorrer com os povos do mundo para receber deles mais honra e mais reconhecimento, o que pode nos levar a fazer coisas erradas e tentarmos ser como eles para não perdermos o reconhecimento que eles nos dão.
Mas temos que fazer como Shifra e Pua, ter temor à D’us, saber que o importante é o reconhecimento Divino.
E o principal: Saber que D’us não fica devendo, e quando por motivos religiosos abrimos mão da honra e do reconhecimento que recebemos dos povos que vivemos no meio deles D’us nos recompensa e nos dá a honra e o reconhecimento verdadeiros.
Rabino Gloiber
Sempre correndo
Mas sempre rezando por você
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