Hukat – A Vaca Vermelha

 

A Vaca Vermelha
 

 

O Baal Shem Tov nos ensinou que todos os mandamentos Divinos são eternos, porque a Torá é a revelação Divina e D’us é eterno.

 

A Torá é a sabedoria Divina que desceu ao nosso nível, como por exemplo um pai muito sábio que ensina ao filho mais velho uma sabedoria muito profunda.

 

Quando ele fala com o filho pequeno, a sabedoria profunda desce ao nível da criança aparentando ser uma coisa simples, mas por trás disso se encontra uma sabedoria profunda.

 

Assim também são os mandamentos Divinos, cada um tem por trás de si diferentes aspectos, muitas vezes desconhecidos.

 

O lado simples do mandamento Divino chamamos de “Pshat”. O Pshat é o jeito simples e específico de cumprir o mandamento na prática tendo muitos deles um local e tempo determinado que não é necessariamente “aqui e agora”.

 

No Pshat o mandamento pode acontecer poucas vezes como no caso da Vaca Vermelha da nossa Parashá, ou não acontecer nunca como no caso do ”ben sorer umore” que é um mandamento da Torá que nunca aconteceu e nunca acontecerá.

 

Mas todos os mandamentos Divinos tem um aspecto no qual eles são eternos e acontecem “aqui e agora” mas em outro nível. Um desses aspectos é chamado de ”Remez” (indicação).

 

Nossa Parashá nos conta sobre o mandamento da Vaca Vermelha, um mandamento que aconteceu na prática somente nove vezes em toda a nossa história e vai acontecer mais uma vez na época do Mashia’h.

 

Esse mandamento tem uma característica interessante que é a de impurificar os puros e purificar os Impuros. Diz o Baal Shem Tov que o “Remez” desse mandamento é o orgulho.


 

Orgulho: qualidade ou defeito?


 

O orgulho é comparado à Pará Adumá, a Vaca Vermelha, ele purifica os impuros e impurifica os puros.

 

Quando uma pessoa se comporta de maneira incorreta ele está distante de D’us, e para conseguir sair dessa impureza a pessoa deve se encher de Orgulho.



Ter orgulho de cada mandamento que cumpre, de cada Tzedaká que dá, sentir que faz algo por D’us e que agora D’us está em dívida com ela e vai dar para ela um Paraíso enorme.

 

Mas aí ela chega à uma etapa aonde se acomoda e acha que já fez até demais.



Nessa hora o orgulho que serviu para ela crescer faz ela se acomodar. Se torna uma barreira, se torna um um bloqueio. De purificador vira impurificador!

 

Sendo que nessa etapa o orgulho deixa de ser um remédio e se torna um veneno, deve ser eliminado.



Para eliminá-lo a pessoa deve se lembrar que toda a Tzedaká que deu foi somente parte do que AShem  deu para ela, ainda mais, foi a parte pequena da benção Divina que ela recebeu.

 

E todos os mandamentos Divinos que ela cumpriu foram com a força e saúde que AShem  deu para ela, e ainda mais, foi somente com um pouquinho dessa energia que recebeu de AShem.

 


Descobre que ela era somente uma criança pequena segurando a direção do carro do papai e achando que estava dirigindo.

 

Aí o Yetzer Hará que é a nossa má inclinação, pode falar para ela- : Viu ! Você nunca fez nada! Você é uma incapaz! Ou sugerir para ela uma falsa humildade dizendo:- Quem é você para fazer alguma coisa?

 

Dessa maneira o “yetzer hará” tira dela a auto estima e a derruba para baixo para que ela deixe de cumprir os Mandamentos Divinos achando que tudo o que ela faz não tem nenhum valor lá em cima.

 

Aí o orgulho é novamente necessário para fazer ela subir, e agora que ela já está cumprindo os Mandamentos Divinos, ela toma a decisão de acrescentar na qualidade, caprichar mais nos Mandamentos, estudar mais Torá, subir de verdade!

 

Agora ela se sente verdadeiramente alguém importante lá em cima!

 

E nessa hora que ela chegou à um nível mais elevado e parou de subir, o orgulho se torna novamente um veneno.



Ela se sente dona da razão, reage com crueldade, de maneira desproporcional e fora de controle à qualquer mínimo ataque feito à ela ou ao que ela representa.

 

Achando que quando atacada, em legítima defesa pode massacrar quem a atacou, principalmente quando se trata de um assunto religioso no qual ela tem razão.



Se esquecendo totalmente que as palavras dos sábios são ouvidas com tranquilidade, e principalmente ditas com tranquilidade. 

 

Novamente o orgulho faz com que ela volte a ser impura e esse orgulho é prejudicial e tem que ser eliminado.

 

Conclusão:

 

O orgulho em relação ao nível superior que devemos alcançar é indispensável, sem ele não chegamos lá, mas em relação ao nível que já foi alcançado é destrutivo.

 

Por isso não temos que olhar para trás, para o que já fizemos, mas sim para frente, para o que podemos fazer melhor. Porque sempre em relação ao nível superior o orgulho é um vento à nosso favor!

 

“O Cajado”

 

Nossa Parashá nos conta, entre muitos assuntos interessantes, que D’us pede para Moshe pegar “o cajado”, reunir o povo, falar com uma rocha na frente de todos e dela vai sair água para o povo inteiro.

 

No começo da história da saída do Egito, quando AShem  (D’us) se revelou à Moshe no monte Sinai na ocasião do ”arbusto incandescente” e pediu para ele tirar nosso povo do Egito, Moshe estava com esse cajado.

 

Nessa ocasião AShem  pede para ele jogar o cajado no chão e ele vira uma serpente. Moshe pega a serpente e ela volta a ser cajado. AShem  diz para ele levar esse cajado para o Egito e com ele fazer os milagres.

 

Agora, próximos à conclusão da história da saída do Egito, próximos à entrar definitivamente na terra prometida depois de ter ficado no deserto por quase quarenta anos, AShem  pede para ele pegar “o cajado” e falar com a rocha.

 

Qual é a importância tão grande desse cajado que na nossa Parashá ele é chamado por AShem  simplesmente de “o cajado ?
 

 

O cajado de Moshe


 

Rabi Levi no Midrash nos conta que esse cajado foi criado no sexto dia da criação do mundo “bein hashmashot”, depois do pôr do sol mas antes de saírem as estrelas, horário que não é nem dia e nem noite em que o que foi criado nele era meio material e meio espiritual.

 

Esse cajado foi dado para Adam a Rishon (o primeiro homem) no Gan Éden (Paraíso). Adam deu ele para Hano’h que o deu para Noa’h que o deu para Shem que o entregou à Avraham Avinu, o primeiro dos nossos três patriarcas.

 

Avraham o deu para Itzhak, Itzhak o deu para Yaakov que o levou ao Egito e o entregou à Yossef.

 

Quando Yossef faleceu, tudo o que havia na sua casa foi levado ao palácio do faraó, inclusive “o cajado”.



Ytró era um dos assessores do Faraó. Ele viu que esse cajado tinha letras hebraicas, e mesmo sendo ele um dos grandes sábios dos povos da época, aquelas palavras ele não conseguiu decifrar.

 

Quando ele se demitiu do Faraó, pegou aquele cajado e o levou para Midian. Enfiou ele na terra do jardim de sua casa e não conseguiu mais arrancar ele de lá.



Sempre que alguém pedia sua filha Tzipora em casamento ele colocava como condição arrancar aquele cajado do chão, mas por mais forte que fosse o pretendente ninguém conseguiu arrancar o cajado (olha de onde os ingleses copiaram a lenda do rei Arthur).

 

Quando Moshe fugiu do Egito e chegou à casa de Ytró, leu o que estava escrito no cajado, tirou ele do jardim e se tornou o genro de Ytró.



Diz o Zohar que nesse cajado estava lapidado o nome explícito de AShem  dos dois lados e representava dois tipos diferentes de atuação Divina no mundo, um lado despertaria a Hessed (bondade) e a Guevurá (severidade) e o outro lado despertaria Guevurá com Guevurá para quando fosse necessário.

 

Por isso nas pragas do Egito aparece a linguagem “incline seu braço”, se referido ao braço esquerdo, o lado da Guevurá. Diz o Zohar que esse é o motivo pelo qual AShem  pediu para Aaron jogar o cajado dele na frente do Faraó e não para Moshe fazer isso. 

 

O cajado de Moshe não podia ser jogado no chão e nem comer os feitiços dos magos do Egito.

 

 

Tanin – cobra ou crocodilo?


 

Naquela ocasião o cajado de Aaron se transformou em “tanin”, e voltando a ser cajado comeu os cajados dos feiticeiros do Egito que tinham se transformado em “taninim”.



Nesse caso a palavra “tanin” é traduzida por Unkelus como “tanina” e não como “hivei” que quer dizer cobra em aramaico.

 

A palavra “tanin” em árabe, idioma mais próximo ao aramaico, quer dizer dragão.Tanto Rashi na sua explicação quanto Rabi David e seu filho Rabi Yehiel Altshuler que escreveram o livro Metzudat Tzion que traduz as palavras difíceis do Tana’h, traduzem tanin como cobra.



Em todos os lugares do Tana’h onde essa palavra aparece nesse sentido é traduzida como cobra, fora as vezes que essa palavra se refere à um peixe puro gigantesco, e lá eles traduzem essa palavra como peixe e não como cobra.

 

O que eles têm em comum era o fato de terem vivido na Europa em uma época que não tinha lá crocodilos como atualmente nos zoológicos climatizados.



O dicionário de hebraico traduz tanin como crocodilo sem conseguir explicar exatamente onde essa tradução começou.

 

Levando em consideração a tradução de Unkelus e também analisando um versículo de Yehezkel 29/3 onde ele cita o exibicionismo do faraó comparando lá o faraó a um grande “tanin” agachado confiantemente dentro do seu rio, que lembra mais a prepotência de um crocodilo do Nilo agachado dentro da água do que de uma cobra coitada que caiu na água e está tentando fugir dela.

 

Chegamos à conclusão de que o “tanin” é um crocodilo mesmo, e que Rashi não teria outro jeito de explicar para uma criança de cinco anos na Europa há mais de novecentos anos atrás o que é um crocodilo a não ser dessa forma.

 

Sendo assim,tanto o cajado de Aaron quanto os cajados dos feiticeiros do Egito nessa ocasião se transformaram em crocodilos e o cajado de Aaron voltando a ser cajado comeu os crocodilos dos feiticeiros demonstrando uma força superior à deles que pode atuar em nível de cajado, inferior aos crocodilos e mesmo assim comer os crocodilos, e por isso eles se assustaram.

 

Mas era o cajado de Aaron que tinha que fazer isso e não o cajado de Moshe, porque AShem  não queria impurificar seu nome lapidado no cajado de Moshe quando o cajado engolisse os feitiços.

 

Diz o Zohar que outro motivo de que naquela ocasião obrigatoriamente teria que ser o cajado de Aaron era para subjugar todos aqueles que eram do lado esquerdo, “Guevurá”, porque Aaron era o Cohen, “homem da bondade”, nas Sefirot a Hessed, “lado direito” que subjuga a Guevurá que é o lado esquerdo.

 

Diz o Zohar que AShem  quis que seus nomes lapidados no cajado fizessem os milagres, mas quando Moshe bateu com ele na pedra duas vezes AShem  disse para ele que não era para isso que ele tinha esse cajado.

 

A Torá nos conta que esse é o motivo que Moshe não entrou na terra prometida, publicando a grandeza de Moshe que não teve outro motivo a não ser esse motivo tão pequeno.

 

Diz o Rebe de Lubavitch que aprendemos com o cajado de Moshe uma coisa muito importante:

 

Nesse mesmo cajado que estavam lapidados os nomes das nossas seis matriarcas e seus doze filhos que deram origem ao povo de Israel, ao mesmo tempo estavam lapidadas nele em forma de iniciais as dez pragas que eram o nível mais baixo da atuação Divina, a revelação Divina em forma de pragas que aconteceram no Egito, país mais depravado do mundo.

 

E nesse mesmíssimo cajado estava lapidado o nome mais sagrado de AShem , o mais importante dos sete nomes de D’us que não podem ser apagados, o nome que se refere à “essência Divina”, e quando nos unimos à um pouco da essência Divina nos unimos à ela inteira.

 

Diz o Baal Shem Tov que a Divina providência não recai somente à assuntos globais, mas AShem  se relaciona à menor coisa do mundo da mesma maneira que se relaciona à maior coisa do mundo.



E não só à menor coisa como também a menor das menores, porque o menor detalhe completa a mais suprema perfeição da intenção Divina.

 

Mesmo sendo AShem  o Todo Poderoso, Ele está cuidando de cada detalhe de uma criança pequena nesse mundo, e até de coisas ainda menores como uma folhinha que cai de uma árvore.



A Divina Providência está acompanhando essa folhinha e determinado quantas voltas ela vai dar, e se vai ser por meio do vento ou de outra forma.

 

Vimos no comportamento do Baal Shem Tov esses dois extremos.



Por um lado ele revelava aos seus alunos os segredos mais profundos da Torá, e junto com isso ele conversava com as pessoas mais simples sobre os assuntos mais simples da Torá e das Mitzvot, e ele próprio ensinava as crianças pequenas a falar o Amém do Kadish.

 

Aprendemos daqui que por mais que estejamos ocupados com assuntos importantíssimos temos que nos ocupar da mesma maneira com assuntos de Torá e Mitzvot que parecem para nós muito pequenos, se até AShem  faz assim, quanto mais nós!

 

Diz o Midrash que o cajado de Moshe chegou até o rei David, dele passou para os reis da Judéia, e na destruição do primeiro Beit a Mikdash ele desapareceu.

 

Mas esse mesmo cajado que estava nas mãos de Moshe vai estar nas mãos do Mashia’h, e com ele o Mashia’h vai tirar o povo de Israel do Galut


Shabat Shalom

Rabino Gloiber

Sempre correndo

mas sempre rezando por você

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